I – Chegando na hora
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ma leve brisa pairava naquela manhã, um vento espalhava as folhas secas pela rua formando um largo e mesclado tapete, mostrando que o outono além de ser uma das melhores estações, era também um belo ‘decorador’. Allian olha pela janela, e um pouco contrariado, se prepara para ir à faculdade, nem mesmo essas lindas cenas da natureza, fazia com que ele visse a cidade com bons olhos.
Desde o começo, discordara da mudança, mas ultimamente seus pais andavam tomando decisões sem o hábito familiar de consultar os outros membros. Para quem começaria o primeiro semestre de um curso a muito esperado, Allian não mostrava muita empolgação. Já fazia duas semanas que estava na nova cidade e não se interessara em conhecer o Campus, ou pelo menos algum colega de curso. Isso fazia com que ele se sentisse como se estivesse indo para sua primeira aula no colegial. Sabia dos ‘trotes’, e das possíveis perseguições a alunos novatos e estava um pouco apreensivo, não querendo ter nenhum problema logo no começo.
- All – grita a mãe de Allian – você não vai descer, quer chegar atrasado no primeiro dia???
- Ângela, era professora de Literatura e havia conseguido uma transferência, para uma das melhores faculdades de Minnesota, por coincidência a mesma em que Allian começaria seu curso de Filosofia.
- Não se preocupe mami – responde carinhosamente Allian, enquanto pula os últimos degraus da escada parando em frente a sua mãe e dando-lhe um forte beijo – já não estou no colegial...
- Tome logo seu café que te dou uma carona.
- Não!!! O que as garotas vão pensar de um ‘cara’ que chega com a mãe no primeiro dia de aula. Pode deixar que eu vou andando, é impossível eu me perder... São apenas dois quarteirões, fica tranqüila que seu filhinho chegará ‘são e salvo’.
Antes que sua mãe dissesse algo, All já havia saído pela porta dos fundos. Caminhando sem presa pela calçada, pensa em algo que possa animá-lo, “Seria o máximo se Eric, estivesse aqui” pensa ele, “com certeza, iríamos revolucionar essa ‘grande roça’”.
Em seu trajeto uma cena o chama a atenção interrompendo seus pensamentos. Dois garotos aparentemente bem vestidos estavam encostados em uma árvore, com uma garrafa jogada perto e ambos fumavam.... Um deles olha pra All e diz:
- ‘Qualé brother’, não quer se divertir no primeiro dia de aula...
All balança a cabeça negativamente e com muita tristeza diz a si mesmo. “Eric não está aqui, nem poderia”. Próximo ao Campus, All tenta se desvencilhar das lembranças do irmão, que lhe causava uma angústia profunda.
Ângela, já havia se apresentado na sala dos professores, sendo bem recebida por todos, estava pronta para sua aula. Andando por aqueles corredores, vendo muitos jovens entusiasmados, sentia tanta vida naquele lugar, e uma imagem vem a sua mente, Eric com sua mochila nas costa, boné pra trás de forma que seus cabelos formavam uma pequena franja em seu rosto, dando-lhe uma aparência travessa e adolescente. Quando Eric encontrava sua mãe nos corredores do colégio, ou qualquer outro lugar, abria um sorriso enorme, dava uma piscadinha dizendo, “essa é minha princesa”...
É realmente ele fazia muita falta, seu marido convidou-a para fazer uma viajem ou ficar um tempo longe do trabalho, mas ela fazia questão de continuar. “Com certeza, a melhor distração é o trabalho”, dizia ela. “Só assim, para driblar o tempo e as lembranças. E quer coisa melhor do que estar rodeada de jovens todos lindos, chamando por mim.” Mark acabou desistindo, quem sabe estar entre os jovens faria bem a sua esposa?!
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All andava um pouco apressado nos corredores da faculdade a procura de sua sala, nem percebe quando esbarra em uma garota quase a levando ao chão junto com seus livros.
- Hey, garoto! Olhar pra frente é bom, de vez em quando – reclama a garota.
- Por favor, me desculpe – diz All, um tanto sem jeito - estou rodando a horas tentando encontrar a sala 127 do Bloco C.... Pode me ajudar.
- Que tal você pegar meus livros antes – diz a garota, olhando como se esperasse um rápido cumprimento de sua ordem.
- Claro – se desculpa All - Aqui estão...
- Então quer saber onde fica sua sala??? Vai seguindo por esse corredor a próxima sala é a 125 – ao dizer isso, Anna nota uma expressão de alívio em All - presta atenção nas placas garotinho... Uma hora você encontra.
Dizendo isso, Anna segue pelo lado oposto dando uma risadinha, depois de alguns passos ela olha pra trás e diz.
- A propósito garoto... Estamos no Bloco A.
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Depois de rodar uns cinco minutos, All consegue achar a sala. “Não imaginava que esse lugar fosse tão grande, parece até um labirinto”, pensa ele. Chegando incrivelmente atrasado, aproveita que seu professor está entretido com alguma anotação e tenta entrar pelo canto da sala.
- Se perdeu meu rapaz? – indaga o professor
- Na verdade eu... – All tenta inventar alguma desculpa, mas logo é interrompido pelo professor.
- Tudo bem jovem, sem perda de tempo procure um lugar, ainda tenho uma aula pra dar.
Percebendo certa gozação e risos, All fica um tanto incomodado. Logo no início, em que queria ter uma manhã tranqüila, já tinha se aborrecido com dois ínfimos acontecimentos.
Talvez fosse o fato de não gostar da cidade, ou ter se mudado contra a vontade, mas All sentia muita hostilidade nas pessoas dali. Ele sabia que por ser um ‘cara’ tranqüilo podia se dar bem naquele lugar sem muito esforço. Poucas coisas incomodavam All, passava a maior parte do tempo em suas leituras e pesquisas, pois sempre fora amante da leitura, admirava grandes filósofos e chegava a trazer para o seu dia citações e manias de seus ídolos. Nunca foi considerado nerd por seus amigos, porque sabia se divertir e nas baladas e programas da galera, All sempre estava dentro.
All aproveita o intervalo entre uma aula e sai à procura de uma biblioteca. Agora sem presa, pode andar calmamente pelos corredores do campus, observando tudo. Via muitos grupos aleatórios espalhados pela área da faculdade, todos com alguma peculiaridade. Sentando em um banco no pátio All observa cada um que passa em sua frente, como se fizesse uma análise psicológica de seus companheiros. De repente com um longo suspiro ele pensa “com certeza, se você estivesse aqui, não teria esse problema”.
Mergulhado em seus pensamentos All reconhece uma garota em meio a um pequeno grupo que passava por perto. Antes que fosse reconhecido, tentou sair disfarçadamente, quando ouve um cara gritando.
- Davis??? Allian Davis? – pergunta o rapaz
All estranha alguém saber seu nome naquele lugar, e vira para ver quem lhe chamara. Feliz, ou infelizmente, ele para literalmente em frente à garota.
- Olá apressadinho – diz Anna, em tom sarcástico.
Antes que All responda, o rapaz interrompe o “grande” encontro.
- Não acredito que é você... – diz o rapaz – não se lembra de mim...
- Kart!... Não imaginava que pudesse encontrar algum conhecido – responde All, dando um forte abraço em seu amigo, enquanto este o saúda com um tapinha nas costas.
Como me esqueceria... Ainda me lembro das garotinhas do clube gritando “Vai Krows...”. Você está bem diferente, se lhe encontrasse na rua provavelmente não te reconheceria.
- vejo que já conheceu Anna – pergunta Kart
- Não – diz All, simultaneamente enquanto ouve um “Sim” vindo da garota.
Vocês querem entrar num acordo? – diz Kart
- Na verdade – diz Anna tomando a palavra – Seu amigo me ajudou, quando um cara muito apressado quase passou por cima de mim, derrubando meus livros; provavelmente um novato, devia estar correndo para achar algum bloco. Se não estivesse com tanta pressa eu ajudaria o rapaz, mas ele deve ter encontrado, ou recebido informações sobre as dependências do campus.
All se surpreende com a rápida estória contada por Anna, e resolve não esticar mais o assunto, já que encontrara um amigo de muito tempo. Com certeza aquilo era um bom momento do dia.
- Então – diz Kart – como veio parar aqui? E como estão todos? Não vejo à hora de encontrar com Eric, ele ainda luta, vai se surpreender quando vir que já estou chegando à última faixa.
Kart estava tão entusiasmado ao reencontrar seu amigo, que nem percebe quando All, muda completamente sua expressão.
- Já faz seis anos que não nos vemos hem?! – All tenta se acalmar para dar uma triste notícia para o amigo – Muitas coisas aconteceram depois que você mudou e.....
Kart, apesar de passar seis anos longe do amigo, percebe que ele quer lhe contar algo sério.
- Realmente é muito bom te ver – diz All – temos muito que conversar. Você, definitivamente chegou na hora certa. Minha mãe ficará feliz em vê-lo, ela está dando aula aqui. Talvez você a encontre logo, vai ser difícil ela te reconhecer.
- Imagino D. Ângela – diz Kart – Karl, como você cresceu...
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Anna, que havia deixado os amigos à vontade, após o seu segundo encontro com All. Estava agora a procura de Kart. Tendo caminhado por um corredor e chegando ao pátio, avista o amigo com sua ‘sagrada’ jaqueta do time de futebol, sentado junto com All em banco próximo a entrada da biblioteca.
- Kart, tudo bem?! – diz Anna surpreendendo os dois que estavam em uma empolgante conversa – não que eu queira atrapalhar, mas você perdeu a aula de química. Esqueceu que não é mais calouro, e ainda precisa recuperar as faltas do último semestre.
- Sim mamãe – responde Kart, demonstrando que realmente estava preocupado – qual é nossa próxima aula? Perdi noção do tempo.
- Teremos uma palestra no anfiteatro de biologia para os ‘bichos’(como eram chamados, os novatos do campus) – responde Anna, e antes de ir embora, se volta para seu amigo com seu jeito irônico de sempre – só pra te lembrar, você está escalado como monitor. Não preciso te dizer o que acontece, com quem falta logo no começo neh??
Kart se levanta e prepara para seguir Anna, sabendo que já está ‘marcado’ por suas constantes faltas.
All – diz ele – Tenho mesmo que ir, talvez não haja nenhuma aula pra você hoje, aproveita para conhecer o campus, e olha bem seu quadro de aulas, porque aqui, a ‘galera pega pesado’.
- Beleza, te encontro depois. Pega meu endereço, você já deve estar acostumado com a cidade.....
- Acostumado – se intromete Anna – Karl conhece esse lugar melhor que os próprios fundadores...
- Então – diz All, um pouco mais sério – Preciso te contar algo importante, minha mãe ficará feliz em te ver. Ela anda um pouco doente.
All percebe que sua voz, começa a embargar, mas sente que ali não é hora nem local para contar os últimos acontecidos.
- Kart – diz Anna – vamos. Porque você não o leva ao ‘point’ depois da aula. Lá vocês poderão conversar e pode aproveitar pra apresentá-lo a galera.
All percebe que talvez, Anna esteja tentando ser simpática e com um sorriso faz o mesmo.
- É... Valeu pelo convite.
- Então ‘falow’, passo na sua casa mais tarde All, se prepara pra conhecer altas gatinhas...
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All estava andando pelo campus a fim de conhecer direito o local e uma nuvem de pensamentos se formava em sua mente. Estava muito feliz em ter encontrado um amigo depois de seis anos, agora se sentiria melhor na nova cidade e até mesmo na faculdade. A conversa foi tanta, e só agora se deu conta que nem havia perguntado qual curso o amigo fazia. Poderia estar no mesmo curso?? O fato é que agora, All poderia dividir coisas que vem guardando pra si há muito tempo. De repente ele lembra de uma frase de um dos imortais (os melhores escritores e filósofos p/ All). Dizia “Onde há muito sentimento, há muita dor”. Realmente, aquilo o torturava dia e noite, e vendo o quanto seus pais foram abalados pela perda do filho, sua dor aumentava. Eric fazia muita falta. All queria ter contado ‘de cara’ para Kart, mas não sabia como. Seria também muito difícil pra ele acreditar que seu amigo morrera tão jovem e com tanta saúde. Por quê??? Era o que sempre martelava na cabeça de All.
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